quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Prioridades

Escrito e Postado por Renata Palombo
Fonte: Google Imagens

Nestes últimos meses fiquei bastante em casa cuidando do meu lar e dos meus filhos e como eu escrevi no post Dona de Casa: Ser ou Não Ser: Eis a questão..., apesar de não gostar muito dos afazeres domésticos curti estar mais próximo de tudo isso e desejei algumas vezes poder abrir mão do meu emprego para não abrir mão dessa convivência tão cheia de coisas boas.

Cheguei a ponderar com o marido a possibilidade de deixar de trabalhar, dividi a angústia com as amigas, conversei comigo mesma... mas como é difícil tomar uma decisão nesta esfera.. Não é só cuidar mais dos filhos e do lar, é abrir mão da carreira, do dinheiro e do que ele pode nos proporcionar, da estabilidade...

Acabou minhas férias e como meu cérebro e meu coração não entraram em acordo, voltei ao trabalho. Apesar de amar o que faço, voltei cheia de pena, lamentações e talvez até culpa por ter que ficar mais tempo longe da casa e dos filhos. Voltar a trabalhar já desestruturou nossa rotina desde o dia anterior a volta, quando tive que conseguir alguém que buscasse o filho na escola, precisei de pedir para alguém ficar com ele a tarde. Fiz mistura pra filha almoçar no dia seguinte e precisei deixar algumas coisas da casa por fazer.

Já no primeiro dia de trabalho, o primeiro atendimento que fiz foi de uma mãe que acabara de ganhar um bebê, mas este por ter nascido prematuro encontrava-se hospitalizado. Fiz uma introdução para a conversa chamando-a pelo nome e me apresentando e depois perguntei quantos anos ela tinha:

- 16.
- 16 anos? E você mora com quem?
- Com meu marido.
- Marido? Vocês são casados no papel?
- Não. A gente só tá juntado.
- Há quanto tempo estão juntos?
- 4 anos
- Bastante tempo, hein? E como você está se organizando para visitar seu bebê? Você tem conseguido passar o dia aqui no hospital?
- Não. Eu fico só de manhã. A tarde eu tenho que ir pra casa porque tenho que cuidar da minha outra filha de 2 anos.
- Entao você já tem uma filha! Foi você que quis engravidar de novo?
- Não! Aconteceu. Eu peguei essa gravidez sem querer.
- Sem querer... me explica melhor.
- Ah! Pegando... assim sem querer. Quando eu tomei um café eu comecei a vomitar, aí meu marido me levou no postinho e eu tava grávida de novo, mas eu nem sabia. O que eu podia fazer? Já tava dentro... eu tinha que aceitar.

Confesso que nessa hora senti um misto de raiva e indignação por ver uma maternidade tão precoce e irresponsável, mas conforme foi se seguindo o atendimento fui descobrindo uma adolescente dócil e apesar de precoce nada de irresponsável, mas de muita simplicidade, o que não a torna pior que ninguém. Na conversa descobri que toda sua família mora no Nordeste e aqui é só ela e o marido, o que a faz ter que dar conta sozinha dos afazeres domésticos, cuidados com a filha de 2 anos e com o marido. Fez o pré-natal direitinho, foi em todas as consultas. Estudou até a quarta série e disse não saber ler nem escrever. O marido ganha R$ 900,00 bruto e paga aluguel, luz, água e compra as coisas para a "menina", como ela se referiu a filha. Disse ela que o que os salvam é a cesta básica que a firma dá. Amamentou sua primeira filha até 1 ano e meio e pretende fazer o mesmo com o bebê que acabou de nascer, porque acredita que não há nada melhor para os filhos do que o leite materno. Quando se refere aos filhos sorri e fica com os olhos brilhando, contou algumas peraltices da menina e a definiu como "criança muito sabida", ficou com os olhos cheios de lágrimas ao dizer que deseja que o filho logo receba alta para tê-lo em casa. Ganhou fraldas e roupas dos vizinhos. Perguntei quem a ajudaria nos primeiros dias em casa com o bebê e ela responde de maneira óbvia e com uma segurança de dar inveja: "ninguém". O marido talvez a ajudaria quando chegasse do trabalho.

No final da conversa eu já estava com um misto de percepções. Se por um lado estava diante de uma mulher pronta para ser mãe (se é que algum dia a gente fica pronta para ser mãe), por outro lado eu estava diante de uma menina cheia de potencial para viver o que ela deveria viver aos 16 anos ao invés de já ter tanta responsabilidade. É fato que eu estava diante também de um conflito de culturas. Eu fui criada para valorizar e priorizar coisas diferentes das quais ela foi criada. Apesar de reconhecer isso e de perceber que talvez ela estava vivendo a vida que sempre sonhara não pude deixar de perguntar uma coisa:

- O que você quer para sua vida?
- O que eu quero? Quero ser feliz. Quero cuidar dos meus filhos, quero que tenham saúde, amor e quero estar sempre com meu marido.

Ainda achando que ela devesse almejar muito mais do que só aquilo eu perguntei:

- Você não pensa em voltar a estudar, arrumar um bom emprego?
- Eu já pensei nisso sim. Mas não quero! Prefiro ficar em casa e cuidar dos meus filhos. Prefiro vê-los crescendo. Nenhuma outra pessoa vai cuidar igual eu. Tem gente que judia dos filhos dos outros sabia? Eu não quero ficar longe dos meus filhos para trabalhar se a gente consegue viver bem com o trabalho do meu marido. 

Esta menina me fez pensar sobre o que as pessoas priorizam em suas vidas e o que elas precisam "sacrificar" para ter o que priorizam. 

Pra falar bem a verdade, nem eu sei o que eu quero dizer com esta postagem. Eu não quero dizer que ela está certa, tão pouco que esteja errada. Eu não quero julgar mães que trabalham fora e deixam seus filhos sob os cuidados de outros, tão pouco me auto condenar por fazer isso. Eu também não quero dizer que esta mãe é mais feliz do que eu, tão pouco que eu vivo melhor do que ela.

Acho que o que eu posso dizer é apenas que somos diferentes! Histórias diferentes, constituições de vidas diferentes, objetivos diferentes... mas com uma PRIORIDADE em comum:

DAR O MELHOR QUE TEMOS E PODEMOS PARA NOSSOS FILHOS.

Conte-nos quais são as suas prioridades!

8 comentários:

Juliana M&S disse...

puxa... e a gente pensa que vai enfrentar algum problema financeiro se largar o trabalho pra ficar com as crias... Quantas são as nossas reais prioridades, não é ?
Pra pensar...

Ane disse...

Nesse último ano eu atendi na Clínica Social da Faculdade, e acho que foi fundamental me deparar com uma realidade completamente diferente da minha. Uma coisa que exercitamos muito é suspender o juízo de valor, olhar o outro pelo que ele é, sem emitir nenhum juízo de certo ou errado, e isso e extremamente difícil, pois sempre usamos o nosso filtro, né? Mas é um exercício constante, e importante, principalmente para quem lida com outro ser humano.
Acho que a questão de trabalhar e cuidar dos filhos, é muito particular de cada mulher. Do meu lado psicóloga, costumo aliviar um pouco da culpa das mães rs, pq eu acho que faz parte do crescimento lidar com a frustração de não ter a mãe o tempo todo para si (aliás, é o primeiro drama da criança, quando ela percebe que ela e a mãe não ser um ser único, não é mesmo?). Então é importante esse espaço, essa diferenciação, essa possibilidade de se frustrar... mas principalmente para a mãe é importante ter vida além da maternidade... e não é só o dinheiro, mas a possibilidade de exercer outras funções além de mãe. Mas é algo muito particular, e respeito e entendo as que optam por priorizar os filhos como as que optam por conciliar carreira e trabalho (e nem sempre isso é uma alternativa, mas sim a única saída...). Muito bom o post!
Beijos

Alyne Afonso disse...

Que post maravilhoso, Renata! O importante, é como vc disse: Saber que somos diferentes e felizes, cada um do seu modo. Sobre trabalhar ou não,deixando de lado a realização profissional, financeira ou o que for, vou dizer uma coisa: Não deixe de trabalhar, mesmo que por 1 só motivo: Aprender e crescer com pessoas que muitas vezes você pensava apenas em ajudar e orientar! Isso vale muito! Bjs pra você e como você me disse: Vai dar tudo certo!

Juliana disse...

Posso estar errada, mas a melhor forma de priorizar algo eh atraves daquilo q nos faz felizes. Se parar de trabalhar vai fazer uma pessoa dedicar se a familia e ser feliz, siga.... Se trabalhar e cuidar do lar fizer feliz, siga. Ou seja, realize se por seus sentimentos e nao por um capricho social ou atender alguem. Os filhos sao felizes qndo primeiramente seus pais sao...

Renata Palombo disse...

Ane, realmente para alguma é uma opção, mas para muitas não! Trabalhar com pessoas sempre nos ensinam muito, muito... Acho q o melhor jeito de livrar-se da culpa é aceitar-se com aquilo q é possível. Obrigada pela sua linda contribuiçao!

Renata Palombo disse...

Obrigada pela torcida Alyne!!

Renata Palombo disse...

Juliana, tb acho q a prioridade eh sermos felizes... Muito obrigada pela contribuição.

Adriana disse...

O texto é realmente muito interessante, e vem de encontro com as minhas duvidas nos dias de hoje PRIORIDADES. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma frase "será que estamos prontas para ser mãe"? Tudo é muito dificil, tudo muito complicado, ter filhos e voltar a trabalhar, quem vai cuidar? Vai cuidar bem? Ou como diz a mãe menina, vai judiar? Eu e minhas duvidas. Mas de uma coisa eu já sei quero ser mãe, pronta ou não.

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