Escrito por Renata Palombo
Postado por Renata Palombo
Fonte: Google Imagens
Quem acompanha meu blog sabe que sou mãe por adoção, quem já leu "Sobre o Blog" sabe também que o blog não tem como objetivo falar sobre adoção, mas sim sobre as descobertas da maternagem independente se biológica ou não, no entanto é constante falar aqui sobre adoção, porque para mim as descobertas da maternagem permeiam, inevitavelmente, a experiência adotiva. Isso significa que em termos práticos, talvez este texto importe apenas para uma parcela muito pequena de mães, mas em termos teóricos poderia importar para muito mais gente, pois reflete o que muitos acreditam e ensinam para seus filhos sobre o que é “ter sido adotado”.
Meu filho mais novo nunca falou muito sobre o fato de ter sido adotado, as vezes eu até desconfiava que ele não tinha muita noção do que isso significava, e de fato acho que não tinha mesmo. Como viveu grande parte da sua vida em abrigo e viu vários “amiguinhos” sendo adotados, possivelmente na construção de mundo dele essa era a forma mais comum de tornar-se filho.
Acontece que conforme o tempo vai passando, suas referências de mundo e filiação tem modificado-se cada vez mais. Suas primeiras manifestações de incomodo diante da filiação adotiva começaram a surgir quando minha irmã e um "monte" de outras amigas ficaram grávidas e ele passou a se dar conta que a maneira mais comum de tornar-se filho é através do nascimento biológico. Tivemos momentos difíceis de conversas sobre o assunto que oras pareciam suprir sua curiosidade e necessidade e oras pareciam confundi-lo ainda mais... Estes, certamente, foram seus primeiros confrontos internos, confrontos com o que já tinha vivido e com o que estava vivendo agora, confrontos com ele mesmo, permeado apenas por suas crenças e seu auto julgamento.
O fato é que as coisas nunca param na relação de nós com nós mesmos! Quando começamos a nos dar conta de que temos algo diferente, isso logo sai do pessoal e caminha para o social e aí sim eu acho que a coisa se torna ainda mais difícil, pois temos que lidar com a crença e julgamento do outro do qual não temos o menor controle. Não que eu acredite piamente que temos controle sobre nossas próprias crenças e auto julgamentos, mas acho que a gente consegue colocar muitas delas em algumas “gavetinhas” e fingir que não as temos, o que nunca é possível fazer com o julgamento do outro.
Com meu filho não foi diferente. Pouco tempo depois de ter que se auto confrontar, começaram a surgir situações em que precisou se confrontar com a sociedade, dentre estas experiência gostaria de destacar uma que me angustiou muito.
Ele brincava em casa com um coleguinha do condomínio de aproximadamente 9 anos, quando o colega viu um porta-retrato com uma foto minha e do meu marido e perguntou para o meu filho onde ele estava quando aquela foto foi tirada. A grande maiora dos filhos responderiam: “Eu ainda não tinha nascido quando eles tiraram esta fotos”, mas o meu, talvez por ainda crer que a forma mais comum de filiação é a adoção, respondeu de maneira muito natural e espontânea: “Eu não conhecia eles ainda quando tiraram esta foto”. Obviamente o colega quis compreender em que momento um filho vive sem conhecer os pais e o meu filho respondeu ainda de forma muito tranquila: “É porque eu sou adotado”.
O menino fez cara de espanto e disse de maneira hostil:
-Que mentira!
Meu filho ficou meio sem graça e recorreu a mim para ajudá-lo: "
-Mãe, não é verdade que eu sou adotado?
Nessa hora eu já estava bem incomodada com o diálogo, com a reação do amigo e também com o que meu filho pudesse estar sentindo, mesmo assim tentei ser o mais natural possível e disse:
- É sim!
Incrivelmente o menino deu dois passos para tras segurando nas mãos o brinquedo que ele tinha trazido para brincarem. "O que será que está havendo?" - Eu pensei. "Será que revelamos algo terrível?", "Será que ele não sabe o que falar?", "Será que está sem graça pela primeira reação que teve?", "Será que ele não sabe o que é adotado e acha que é alguma doença rara?" Resolvi perguntar:
- Você sabe o que é adotado?
- Sei. Ser adotado é ruim. Muito ruim.
-Que mentira!
Meu filho ficou meio sem graça e recorreu a mim para ajudá-lo: "
-Mãe, não é verdade que eu sou adotado?
Nessa hora eu já estava bem incomodada com o diálogo, com a reação do amigo e também com o que meu filho pudesse estar sentindo, mesmo assim tentei ser o mais natural possível e disse:
- É sim!
Incrivelmente o menino deu dois passos para tras segurando nas mãos o brinquedo que ele tinha trazido para brincarem. "O que será que está havendo?" - Eu pensei. "Será que revelamos algo terrível?", "Será que ele não sabe o que falar?", "Será que está sem graça pela primeira reação que teve?", "Será que ele não sabe o que é adotado e acha que é alguma doença rara?" Resolvi perguntar:
- Você sabe o que é adotado?
- Sei. Ser adotado é ruim. Muito ruim.
Ai.
Eu adoraria que meu filho mantivesse sua naturalidade e tranquilidade para falar que foi adotado, sempre que necessário, mas percebi que ele ficou muito desconcertado, decepcionado talvez. Possivelmente pensará duas vezes ao revelar “tal segredo” quando novamente se confrontar com situação semelhante.
Eu não fiquei com raiva do menino. Compreendo que ele ache estranho alguém ter sido adotado, porque no mundo dele a forma mais comum de filiação, certamente, é a biológica, mas de onde será que veio a ideia de que ser adotado é ruim??? O que a sociedade acredita sobre a adoção??? O que os pais tem ensinado para seus filhos sobre a maternagem/paternagem por adoção??? Por que será que num mundo onde se fala tanto em diversidade e inclusão social ainda tem gente que acredita que existe uma sociedade homogênea onde todos são iguais???
Eu fiquei muito entristecida com a situação, não porque eu tenha problemas em falar sobre a adoção, não porque eu tenha medo de enfrentar o preconceito social com relação a isso, não porque eu tenha vergonha de não ter gerado biologicamente e queira esconder isso a “sete chaves”. Esta situação me incomodou única e exclusivamente porque como mãe, a coisa que eu mais queria no mundo era poupar meus filhos de situações que os ferissem e que os fizessem sentir-se diferentes, inferiores. Queria que ele nunca mais precisassem passar por isso (mas sei que ainda terão que passar um milhão de vezes). Me incomodou porque a coisa que eu mais queria no mundo era que meus filhos realmente acreditassem que ruim é não ser amado, ruim é nunca ser aceito.
A resposta do meu filho ao amigo foi: "Nada a ver. Ser adotado é legal!”
Eu gostei que ele se defendeu! Mas meu desejo é que um dia ele possa dizer que é legal ser filho e não que é legal ser adotado. A adoção é apenas a forma como o filho chega até nós. Eu nunca ouvi nenhuma criança dizer: “É legal nascer de parto normal”.
Depois que o amigo foi embora, eu (mobilizada pela minha prórpria angustia) retomei o assunto, e tivemos uma longa e proveitosa conversa sobre os diferentes tipos de famílias, os preconceitos de raças e opções sexuais e chegamos a conclusão que o que é mais importante é SERMOS FELIZES COMO SOMOS E COM O QUE TEMOS.
Se você também é do tipo que acha que ser adotado é ruim, eu vou repetir que ruim é não ser amado, ruim é nunca ser aceito e vou acrescentar ainda que ruim é não ser feliz.
Que cada um de nós encontre felicidade em nossas vidas.

